Autoria: Maria Antônia Mota Batista
Depois de cinquenta anos longe, Maria Antônia Mota Batista retorna à cidade onde nasceu e redescobre memórias de infância, valores familiares e o ritmo tranquilo da vida nas ladeiras históricas.
Voltar a Ouro Preto depois de cinquenta anos foi como reencontrar uma parte de mim mesma que sempre esteve guardada no coração”, Ao pisar novamente nessas pedras, percebi que Ouro Preto nunca saiu de mim. e redescobrir memórias, cultura e tradições locais.
A alegria de voltar para casa
Estou muito feliz por estar aqui. Nesta terrinha cheia de lembranças inocentes, guardadas com carinho no coração. Foi aqui que vivi minha infância e minha adolescência, fases marcadas por muito amor, respeito e ensinamentos recebidos dos meus pais.
Lembro-me dos namoricos bobos da juventude, das risadas simples e das amizades verdadeiras que nasceram naquele tempo. O mais bonito é perceber que muitas dessas amizades resistiram à distância e ao passar de cinquenta anos. São laços que o tempo não conseguiu desfazer.
Amo ser daqui. Tenho orgulho de dizer que minhas raízes estão nesta terra tão especial.
A educação que veio do amor
Fui criada com liberdade, mas uma liberdade acompanhada de respeito. Dentro da minha casa existia uma forma muito bonita de ensinar valores.
Às vezes fico pensando em algo curioso: meus pais não tinham instrução formal sobre educação. Não existiam cartilhas, cursos ou orientações modernas sobre como criar filhos, como vemos hoje em dia. Mesmo assim, eles conseguiram fazer algo extraordinário.
Criaram seus filhos sem violência verbal ou física. Havia diálogo, havia exemplo e havia amor. Hoje percebo que eles estavam muito além do tempo em que viveram.
Para mim, foram simplesmente os melhores pais do mundo.
Tudo isso vivi aqui. Cada lembrança bonita da minha vida nasceu neste lugar.
Uma cidade preservada pelo tempo
Depois de cinquenta anos longe, resolvi voltar para minha cidade natal, Ouro Preto.
E tive uma sensação surpreendente: tudo parece estar no seu devido lugar. Como se o tempo tivesse passado, mas respeitado a essência da cidade.
Fisicamente quase nada mudou. Culturalmente também não.
Os monumentos continuam imponentes. As igrejas permanecem majestosas. Os museus guardam suas histórias. A arquitetura segue encantando moradores e visitantes.
Tudo permanece como foi deixado pelos artistas e artesãos de outros séculos. Tudo impecável, preservando a identidade de uma cidade que respira história.
Caminhar novamente pelas ruas ainda cobertas de pedras é como caminhar dentro da própria memória.
O cotidiano nas ladeiras
Mas como não continuar observando o cotidiano dos ouro-pretanos?
Percebi outra coisa interessante: as pessoas costumam sair para o trabalho ou para seus compromissos bem mais cedo do que o horário marcado.
E logo entendi o motivo.
As famosas ladeiras de Ouro Preto são lindas, mas também cansativas. Elas obrigam as pessoas a pararem de tempos em tempos para recuperar o fôlego.
E nessas pequenas pausas acontece algo muito bonito.
Outra pessoa chega com o mesmo propósito: parar um pouco para descansar.
E é ali, naquele instante simples, que começa uma conversa.
Um papo espontâneo, às vezes animado, às vezes tranquilo. Conversas que podem durar minutos ou até mais tempo.
Nesses encontros improvisados podem surgir aprendizados, histórias ou simplesmente aquelas conversas do cotidiano, aparentemente sem importância.
Mas talvez o mais importante não seja o conteúdo da conversa.
O importante é o diálogo.
É o encontro.
É o jeito simples e humano de viver.
As janelas depois do almoço
Durante minhas caminhadas pelas ruas, comecei a observar um hábito curioso das pessoas da cidade.
Depois do almoço, muitas delas aparecem nas janelas de suas casas.
Fiquei me perguntando: por que exatamente depois do almoço?
Então comecei a imaginar, dentro da minha mente, como seria o interior dessas casas naquele momento. Visualizei casinhas simples, limpas e arrumadinhas com carinho.
Imaginei também uma broa assando no forno, espalhando aquele cheiro delicioso que anuncia o café da tarde.
Enquanto isso, a janela se transforma em um lugar especial. Ali a pessoa descansa o corpo e também a mente. Observa a rua, vê o movimento da cidade, deixa os pensamentos passearem.
Esse é o meu conceito das pessoas nas janelas: um pequeno ritual silencioso de descanso e contemplação da vida.

Um reencontro com as próprias raízes
Estar novamente aqui me fez perceber que algumas coisas realmente não mudam.
A beleza da cidade continua a mesma. A cultura permanece viva. E o jeito simples das pessoas continua encantando quem observa com atenção.
Voltar para Ouro Preto depois de tantos anos foi mais do que uma visita.
Foi um reencontro com minhas próprias raízes, com minha história e com as lembranças mais bonitas da minha vida.
Autora: Maria Antônia Mota Batista.
